Por Leonardo Boff *
Face ao cataclismo econômico-financeiro mundial se desenham dois
cenários: um de crise e outro de tragédia. Tragédia seria se toda a
arquitetura econômica mundial desabasse e nos empurrasse para um caos
total com milhões de vítimas por violência, fome e guerra. Não seria
impossível, pois o capitalismo, geralmente, supera as situações
caóticas mediante a guerra. Ganha ao destruir e ganha ao reconstruir.
Somente que hoje esta solução não parece viável, pois uma guerra
tecnológica liquidaria com a espécie humana; só cabem guerras
regionais sem uso de armas de destruição em massa.
Outro cenário seria de crise. Para ela, não acaba o mundo econômico,
mas este tipo de mundo, o neoliberal. O caos pode ser criativo, dando
origem a outra ordem diferente e melhor. A crise teria, portanto, uma
função purificadora, abrindo espaço para uma outra oportunidade de
produção e de consumo.
Não precisamos recorrer ao ideograma chinês de crise para saber de sua
significação como risco e oportunidade. Basta recordar o sânscrito
matriz das línguas ocidentais.
Em sânscrito, crise vem de kir ou kri que significa purificar e
limpar. De kri vem também crítica que é um processo pelo qual nos
damos conta dos pressupostos, dos contextos, do alcance e dos limites
seja do pensamento, seja de qualquer fenômeno. De kri se deriva,
outrossim, crisol, elemento químico com o qual se limpa ouro das
gangas e, por fim, acrisolar que quer dizer depurar e decantar. Então,
a crise representa a oportunidade de um processo critico, de depuração
do cerne: só o verdadeiro fica, o acidental cai sem sustentabilidade.
Ao redor e a partir deste cerne se constrói uma outra ordem que
representa a superação da crise. Os ciclos de crise do capitalismo são
notórios. Como nunca se fazem cortes estruturais que inaugurem uma
nova ordem econômica, mas sempre se recorre a ajustes que preservam a
lógica exploradora de base, ele nunca supera propriamente a crise.
Alivia seus efeitos danosos, revitaliza a produção para novamente
entrar em crise e assim prolongar o recorrente ciclo de crises.
A atual crise poderia ser uma grande oportunidade para a invenção de
um outro paradigma de produção e de consumo. Mais que regulações
novas, fazem-se urgentes alternativas. A solução da crise
econômico-financeira passa pelo encaminhamento da crise ecológica
geral e do aquecimento global. Se estas variáveis não forem
consideradas, as soluções econômicas, dentro de pouco tempo, não terão
sustentabilidade e a crise voltará com mais virulência.
As empresas nas bolsas de Londres e de Wall Street tiveram perdas de
mais de um trilhão e meio de dólares, perdas do capital humano.
Enquanto isso, segundo dados do Greenpeace, o capital natural tem
perdas anuais da ordem de 2 a 4, trilhões de dólares, provocadas pela
degradação geral dos ecossistemas, desflorestamento, desertificação e
escassez de água. A primeira produziu pânico, a segunda sequer foi
notada. Mas desta vez não dá para continuar com o business as usual.
O pior que nos pode acontecer é não aproveitar a oportunidade advinda
da crise generalizada do tipo de economia neoliberal para projetar uma
alternativa de produção que combine a preservação do capital natural
com o capital humano. Há que se passar de um paradigma de produção
industrial devastador para um de sustentação de toda a vida.
Esta alternativa é imprescindível, como o mostrou corajosamente
François Houtart, sociólogo belga e grande amigo do Brasil, numa
conferência diante da Assembléia da ONU em 30 de outubro do corrente
ano: se não buscarmos uma alternativa ao atual paradigma econômico em
quinze anos 20% a 30% das espécies vivas poderão desaparecer e nos
meados do século haverá cerca de 150 a 200 milhões de refugiados
climáticos. Agora a crise em vez de oportunidade vira risco aterrador.
A crise atual nos oferece a oportunidade, talvez uma das últimas, para
encontrarmos um modo de vida sustentável para os humanos e para toda a
comunidade de vida. Sem isso poderemos ir ao encontro da escuridão.